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sábado, 30 de maio de 2020

Rio Grande do Sul - Nossas Guerreiras, Policiais Penais que atuam na Pecan


Vindas do interior do Estado, mulheres que atuam como agentes penitenciárias em Canoas contam a rotina de trabalho e vencem o preconceito da profissão que escolheram.




Lotadas na Penitenciária Estadual de Canoas I (Pecan I), as profissionais que atuam como agentes penitenciárias (cargo também conhecido como policial penal) somam 17 mulheres - enquanto os homens ocupam 48 destes postos de trabalho na unidade. Com jornada de 24 horas em regime de plantão - e folgas de 96 horas, as agentes cumprem funções como conferência de celas, resguardam a integridade dos apenados e mantêm a disciplina e a segurança no ambiente prisional.

Vale destacar que quem trabalha na Pecan I não tem contato direto com os apenados. As galerias, que juntas abrigam 390 homens, possuem passarelas por onde todos os agentes circulam e é por ali que monitoram as celas.

"Meus primeiros plantões foram bem tensos"

Mais nova do grupo de agentes penitenciárias entrevistadas por nossa reportagem, Suzane Koehler tem 27 anos, é formada em Direito e atua na Pecan I desde outubro. “Comecei a estudar para concurso mais na área administrativa e depois de um tempo passei para a área da segurança pública. Durante os estudos surgiu o concurso da Susepe. Fiz primeiro para agente penitenciário administrativo. Atuei nesse cargo por um ano e depois fui chamada para o cargo de agente penitenciário e estou desde outubro de 2019 aqui na Pecan.”
Natural de São Borja, Analice Azevedo veio para Canoas atrás de um sonho. Aos 32 anos, o semblante é justamente o de alguém que sabe o que quer e gosta muito do que faz. 
"Tinha minha formação como jornalista, estava insatisfeita e busquei novas alternativas. Descobri a Susepe, passei, conquistei minha vaga e hoje estou aqui na Penitenciária de Canoas trabalhando como agente penitenciária. Vim em busca de um sonho e hoje tenho muito mais tranquilidade, muito mais prazer em trabalhar.”


Assim como no jornalismo, Analice prefere se manter imparcial em relação aos delitos cometidos pelos apenados da Pecan I. Ela ressalta a boa preparação que os agentes recebem no curso de formação, o que a faz não temer nada no cargo que ocupa.

Nosso trabalho não é julgar, é fazer com que eles tenham condições para que possam se ressocializar e depois ter uma vida normal.Trabalhamos em regime de plantão. Saindo daqui, eu esqueço, não levo nada para casa. 


Ela ainda cita um "pré-conceito" que existia na mente da então jornalista com relação à função que desempenha hoje, o que mudou com a prática. 

"Existia na minha cabeça um certo preconceito de que a mulher não era bem vista na segurança pública em geral, que as mulheres não poderiam fazer as mesmas coisas que os agentes masculinos. Mas, chegando aqui, eu vi que não. A gente faz o mesmo trabalho. Existem funções específicas mínimas que a gente não pode fazer, mas de resto fazemos o mesmo trabalho. Isso me motiva, me deixa feliz. O nosso papel no sistema é mostrar a nossa força, que a mulher faz a mesma coisa que o homem no sistema penitenciário.”


"Hoje, trato como uma vocação"

Ana Paula Costa atua em uma frente um pouco diferente, mas assim como Analice é uma das 17 agentes penitenciárias da Pecan I. Ela trabalha operando o scanner corporal, equipamento usado para revistar visitantes - basicamente mulheres. "É pela segurança e também por não passar pelo constrangimento da revista corporal, que antes era minuciosa. Agora passam de roupa e antes tinha que ficar só com roupas íntimas.Além disso, o processo também é mais rápido e mais seguro.”


Aqui é um lugar bem seguro para nós agentes, mas claro que tem sempre o receio de acontecer alguma coisa. Estamos tratando com apenados e a gente não sabe o que eles passaram antes de entrar aqui, o que passa na cabeça deles. Por mais que eles tenham um tratamento psicológico com assistente social, psicólogos, a gente não sabe qual momento eles estão passando. Então, temos que tratar com respeito. 


Formada em Economia, Ana Paula nasceu em Santa Maria e veio para Canoas há cinco anos. "Fiz o concurso em Santa Maria e fui lotada primeiramente em Venâncio Aires. Depois, fui Encruzilhada do Sul, retornei para Venâncio e depois vim para cá, na metade de 2015. Eu já tinha interesse na segurança pública quando resolvi fazer concurso. Nunca tinha entrado numa penitenciária. Hoje, trato como uma vocação. Estou muito feliz com a profissão.”



OPINIÃO DO REPÓRTER | VENDO DE PERTO A ESTRUTURA DA PECAN I  


Eu nunca havia entrado em uma penitenciária e garanto que no imaginário de grande parte das pessoas as casas prisionais são como eu pensava: um local totalmente escuro, corredores com celas gradeadas superlotadas, mau cheiro e detentos reclamando das condições em que vivem. 

Acredito que a maioria dos locais que abrigam presos no Brasil seja exatamente assim, mas na Pecan I a realidade é bem diferente. Celas com portas de ferro - e não grades. É um pouco escuro, mas mais claro do que na minha imaginação, e com odor bem menos forte. Galerias no lugar de pavilhões sem fim.


Mas o que mais chamou minha atenção foram os seguintes aspectos: os agentes não têm contato com os presos, as celas têm uma cama para cada um deles (são 8 por cela) e há janela em tamanho "normal", o que traz ao ambiente uma sensação que difere da clausura construída em minha mente. Como citou a diretora da Pecan I, Magda Rosane da Silveira Pires, "é uma penitenciária modelo, que se destaca no Estado". O mundo na Pecan I obviamente não é cor-de-rosa, mas perto de outras cadeias certamente tem cores.



Fonte: Jornal NH
Reportagem: Bruna Aquino


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